NOVOS VOOS

A comissária de bordo Aline Costa Correia sempre alçou voos altos, mas ainda não se sentia pronta para ser mãe. Aos 35 anos parou de tomar anticoncepcional, seguindo indicação do seu médico. Um mês depois, percebeu irregularidade em seu ciclo menstrual. Logo suspeitou de gravidez e fez um exame de farmácia, que deu negativo. “Fiquei tranquila, pois atribuí o sangramento a um distúrbio hormonal, afinal tomei pílula muitos anos”, conta ela, que nem imaginava a possibilidade de uma gravidez tubária.

Nos casos em que a gravidez ocorre fora do útero, o hormônio da gravidez (HCG) fica muito baixo, quase indetectável, por isso o exame de urina não identificou a gestação. O sangramento intermitente também é um dos indícios de gravidez tubária. Alguns dias depois, ela foi pega de surpresa por uma dor tão intensa que mal conseguia se levantar da cama, mas reuniu forças e foi direto para Perinatal. “Estava branca, pálida e assim que cheguei ao estacionamento da maternidade larguei meu carro aberto, ainda com a chave na ignição e corri para o hospital”, conta.

Ela foi logo atendida e soube que estava com a pressão muito baixa, oito por seis. A médica que fez seu ultrassom apontou uma massa no lado direito do abdome e logo chamou outros médicos. Aline recebeu a notícia da possibilidade de gravidez tubária e que teria que ser internada. Caso o diagnóstico fosse confirmado, uma cirurgia seria necessária. “Lembro que me explicaram que a mesma tecnologia para o exame que confirmaria a tubária seria utilizada na cirurgia, a vídeolaparoscopia. A médica que me atendeu foi muito segura, clara e direta ao me explicar sobre sua suspeita de tubária rota, pois, além da massa, havia muito líquido no meu abdome”, recorda Aline que diz ter ficado tranquila com a segurança da médica. “Eu disse pra ela ‘vamos fazer o que deve ser feito’”.

Aline ainda teve tempo de encontrar seu marido e seu pai antes de entrar no centro cirúrgico. Apesar da tensão, ela sabia que a cirurgia seria realizada com a mais moderna tecnologia e que tudo seria feito por um único corte pelo umbigo, chamado de ‘single port’. Quando acordou, ainda sob o efeito dos medicamentos, olhou o funcionário da maternidade que estava ao seu lado e conversou com ele. “Viajei, falei sobre a minha vida, sobre a minha enorme vontade de voar de balão na Turquia, sobre conhecer a Grécia e nadar com os golfinhos”.

Já no quarto, ao lado da família, Aline mal pode crer no que viu. “Quando acordei e confirmei que realmente só havia um curativo do umbigo e mais nada, fiquei surpresa, feliz e senti um enorme alivio”. Aline teve a trompa direita retirada, mas seus ovários estavam intactos e ela estava viva e saudável. “Meu marido e eu nos olhamos e, diante da fragilidade e da beleza da vida, sentimos nossa união ainda mais forte e naquele momento decidimos ter um filho.”

Como a cirurgia por vídeo é totalmente registrada, ela pode entender exatamente o que ocorreu a cada minuto em que esteve dormindo. A recuperação foi rápida e ela logo se sentiu bem e disposta. Foram quatro meses de acompanhamento pós-cirúrgico e Aline conta que, mesmo se quisesse fugir das regras do pós-operatório, não teria como. “A médica me ligava para lembrar das consultas e perguntar como eu estava. Se eu desse um passo fora da linha, ela puxava a minha orelha.”, conta ela rindo..

Quinze dias após ser liberada para tentar outras gestações, Aline soube que estava grávida, “Foi muito melhor do que meu marido e eu planejamos. Ficamos surpresos com a rapidez com que tudo aconteceu. Para nós pareceu um verdadeiro milagre”. A surpresa foi ainda maior quando soube que o óvulo fecundado foi produzido pelo ovário direito e conduzido até o útero pela trompa esquerda. Aline aguarda ansiosa a chegada de Laura, que se desenvolve com saúde. A futura mamãe planeja voltar à Perinatal e poder contar uma história diferente para a equipe. “Dessa vez, quero dividir um momento feliz com eles, e contar dos planos de levar a Laura para andar de balão na Turquia e nadar com golfinhos na Grécia”, se emociona Aline, realizada com o desfecho dessa história, que começou de forma delicada, mas que se encaminhou da melhor maneira: com a realização do sonho da maternidade.